quarta-feira, 22 de março de 2017

Dois livros sobre vida no campo

Há tempos quero recomendar dois livrinhos incríveis e complementares, que tanto meninos quanto meninas irão gostar, desde os cinco, seis anos de idade, até os dez, onze.

Um deles já recomendei em outras ocasiões, mas sem maiores explicações: trata-se do clássico norte-americano O jovem fazendeiro, de Laura Ingalls Wilder. Neste livreto, ainda mais divertido que o primeiro da série - Uma casa na floresta - Laura narra a infância do marido, Almanzo Wilder, numa época já um pouco afastada da nossa. A história desenvolve-se ao longo de um ano na vida de Almanzo, que contava, então, nove anos de idade. Escola, brincadeiras, roupas, comidas, animais, fé e trabalho, muito trabalho, retratam o dia a dia do menino.

Àquelas famílias que precisam enriquecer o imaginário infantil com bons exemplos, Almanzo Wilder e seus irmãos Royal, Eliza Jane e Alice são um prato cheio. Confiram este trecho:

O pai estava um pouco adiante, na rua, conversando com o Sr. Paddock, o fabricante de carroças. Almanzo caminhou lentamente em direção a eles. Estava amedrontado, mas tinha de ir. Quanto mais se aproximava do pai, mais medo tinha de pedir um níquel. Nunca havia pensado em semelhante coisa. Estava certo que o pai não lhe daria.
Esperou até que o pai parasse de falar e olhasse para ele.
- O que houve, filho? - perguntou o pai.
Almanzo estava assustado.
- Pai... - disse ele.
- Sim, meu filho?
- Pai - disse Almanzo -, o senhor quer me dar... quer me dar... um níquel?
Ficou ali enquanto o pai e o Sr. Paddock olhavam para ele e teve vontade de desaparecer. Finalmente o pai perguntou:
- Para quê?
Almanzo olhou para seus mocassins e murmurou:
- Frank tinha um níquel. Comprou limonada vermelha.
- Bem - disse o pai lentamente -, se Frank o convidou, está certo que você também o convide.
O pai enfiou a mão no bolso. Então parou e perguntou:
- Frank lhe ofereceu limonada?
Almanzo queria tanto ganhar o níquel que fez um aceno afirmativo. Depois estremeceu e disse:
- Não, pai.
O pai olhou-o por um longo tempo. Depois tirou a carteira, abriu-a e, lentamente, tirou um meio dólar de prata, grande e redondo. Perguntou:
- Almanzo, sabe o que é isto?
- Meio dólar - respondeu Almanzo.
- Sim. Mas você sabe o que é meio dólar?
Almanzo só sabia que era meio dólar.
- É trabalho, filho - disse o pai. - É isso que o dinheiro é; trabalho duro.
[...]
O pai perguntou:
- Sabe cultivar batatas, Almanzo?
- Sim - respondeu Almanzo.
- Diga: você tem uma semente de batata na primavera, o que faz com ela?
- Corto-a - respondeu Almanzo.
- Continue, filho.
- Primeiro gradamos... depois adubamos o campo e em seguida o aramos. Depois gradamos e marcamos o terreno. Plantamos as batatas, aramos e capinamos. Aramos e capinamos duas vezes.
- Está certo, filho. E depois?
- Depois as colhemos e guardamos na adega.
- Sim. Depois as selecionamos durante todo o inverno; jogamos fora toda as pequenas e as podres. Quando chega a primavera, carregamos a carroça de batatas e as levamos a Malone, onde as vendemos. E, se conseguimos um bom preço, filho, quanto recebemos por todo esse trabalho? Quanto recebemos por meio bushel de batatas?
- Meio dólar - disse Almanzo.
- Sim - confirmou o pai. - É isso que está neste meio dólar, Almanzo. O trabalho que foi necessário para obter meio bushel de batatas está aqui nele.
[...]
- É seu - disse o pai. - Pode comprar um leitãozinho com ele, se quiser. Pode criá-lo e ele lhe dará uma ninhada de porquinhos que valerão quatro, cinco dólares por cabeça. Ou você pode trocar esse meio dólar por limonada e bebê-la. Faça o que quiser, o dinheiro é seu.
[...]
Os meninos só acreditaram depois que ele mostrou a moeda. Então se agruparam à sua volta, esperando que ele a gastasse. Mostrou-a a todos, depois tornou a guardá-la no bolso.
- Vou dar uma volta por aí - disse ele - e comprar um bom leitãozinho.

O segundo livro que desejo recomendar é inédito, isto é, jamais falei dele em lugar algum. Trata-se de uma gratíssima surpresa presenteada já há algum tempo por minha sogra: o Dicionário por imagens da fazenda. O livrinho é a tradução de um volume de uma pequena coleção francesa, o que explica sua completude e excelente qualidade. Nele não são mencionados apenas os elementos tradicionais que compõem uma fazenda, mas diferentes tipos de fazendas são aprensentados, de várias regiões do mundo, revelando suas belezas e peculiaridades. Além disso, há páginas dedicadas às diversas produções de alimentos, como o pão, o leite e derivados. As ilustrações são excelentes, bem realistas, e os textos são claros.

Infelizmente, parece que o livrinho sumiu das prateleiras, mas outros exemplares da mesma coleção ainda podem ser encontrados, como o Dicionário por imagens do mar e o Dicionário por imagens da Bíblia, que eu não conheço pessoalmente, mas que, se forem bons como o da fazenda, valem a pena.

Enfim, quem precisar de recursos para estimular nas crianças o desenvolvimento de virtudes como a paciência, o empenho, o respeito, a perseverança, aí estão algumas sugestões.

sexta-feira, 10 de março de 2017

De Camões a Ovídio

Na última segunda-feira retomamos oficialmente os estudos. Desta vez, após dois anos trabalhando Os Lusíadas com a Chloe, resolvemos deixá-lo de lado, adotando o Metamorfoses.

E por que deixamos Camões de lado? Primeiro, porque Chloe pediu. Nada contra o texto, nada contra o estilo, nada contra o autor, apenas uma necessidade tipicamente sanguínea de variar e conhecer algo diferente. E considerando que já tínhamos vencido boa parte do texto e das dificuldades por ele apresentadas, não vimos razão para não atender o seu pedido. Segundo, porque queríamos dar um passo além, aumentando a dificuldade das atividades, o que pareceu vir a calhar com a escolha de uma nova obra.

Nestes dois anos fomos até o Canto V, enfatizando fundamentalmente os níveis mais elementares do texto, isto é, a prosódia e a compreensão textual. Trocando em miúdos, lemos muito em voz alta, procurando a melhor pronúncia das palavras bem como o respeito às rimas, explicamos oralmente, copiamos, e fizemos muitas pesquisas junto aos dicionários de língua portuguesa e de mitologia. Eventualmente, quando os versos assim permitiam, fizemos também algumas pesquisas sobre história e geografia. Enfim, nada muito inovador, moderno ou diversificado. O resultado foi um espetacular incremento no vocabulário e uma maior facilidade para compreender textos poéticos e que possuem construções frasais incomuns, diferentes das que usamos ordinariamente.

Quanto às demais materias, vimos um pouco de latim, inglês, história, geografia, ciências, matemática e artes. No entanto, nosso foco é literatura, pois sem ela, sem o domínio da língua mãe em suas formas mais elaboradas, todo o resto não só é prejudicado como, em alguns casos, torna-se inviável.

Hoje encerramos a primeira semana de aulas na companhia das Metamorfoses e estou bastante satisfeita com os resultados até aqui obtidos. Uma das dificuldades acrescidas foi a elaboração de uma paráfrase do trecho estudado no dia. Chloe rapidamente percebeu que enquanto a explicação oral permite uma certa margem de imprecisão e até de incompreensão do texto, a paráfrase não o permite, pois exige uma compreensão completa, plena daquilo que foi lido. Em outras palavras, estamos, aos poucos transitando de uma etapa onde a absorção era o foco para uma etapa em que algo daquilo que foi absorvido precisa ser processado e exposto. E estamos contentes e confiantes. :)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dicas de planejamento de homeschooling

Muitas famílias homeschoolers já retornaram às atividades de estudos, mas há muitas que, assim como nós, por diferentes razões, espicharam um pouco mais as férias. Assim, apesar da época já um tanto adiantada, resolvi compilar aqui algumas dicas para quem quer fazer um bom planejamento de estudos para este ano mas tem encontrado alguma dificuldade ou simplesmente não tem experiência no assunto.

Antes, no entanto, de passar às dicas propriamente ditas, convém esclarecer que não abordarei aqui a questão dos materiais (qual é o melhor, qual é o pior, onde comprar, se existe para download, etc.). Nas dicas, meu foco será a família, as pessoas envolvidas no homeschool. Por desimportante que possa parecer, se a família não está funcionando bem, há grandes chances de o seu homeschool fracassar.

Todavia, quem precisar de ajuda na seleção/avaliação dos materiais, ou precisar de algum auxílio mais pontual, sugiro duas possibilidades: ou o nosso curso Homeschooling 1.0, onde oferecemos todo o passo a passo a quem quer começar, ou uma bate-papo pessoal, com hora marcada (e por um precinho camarada) por meio do email encontrandoalegria@gmail.com.

Mas vamos ao que interessa:

1. Em primeiríssimo lugar, respire fundo e pegue leve: consigo mesma, depois, com as crianças. Assim como esta é um novidade para elas, o é também para você. Ou seja, estão todos aprendendo, e ter paciência e sensibilidade é fundamental para um começo tranquilo.

2. Foque em ter bons recursos: sem eles, a mais excepcional das aulas vale muito pouco. Por outro lado, até mesmo sem uma "aula" propriamente dita, bons recursos podem ensinar muito àqueles que queiram aprender com eles.

3. Considere as variáveis familiares: você acabou de ganhar bebê?; está no oitavo mês de gestação?; trabalha meio turno?; quem vai ministrar as aulas é a avó?; tem 3 filhos com mais de 5 anos de diferença entre eles? Todas essas questões (e muitas outras!) definem as especificidades de cada família e precisam ser levadas em conta na hora da estruturação das aulas e do estabelecimento da rotina de estudos. Em outras palavras, a sua família é a sua família, diferente daquelas outras famílias homeschoolers que você conhece.

4. Considere as variáveis individuais: seu filho é pequeno?; agitado?; sua filha sofreu bullying por anos na escola?; o outro morre de preguiça?; ela tem medo de errar?; a outra só quer competir? Embora os assuntos possam ser idênticos, os indivíduos não o são e é preciso que você leve em conta as peculiaridades da personalidade de cada um para perceber como cada um aprende e poder ajudá-lo a ajudar-se.

5. Esqueça a escola: datas, relatórios, provas, trabalhos, horários... Es-que-ça. Não transforme sua sala de estar em uma nova sala de aula porque neste caso restarão poucos locais para onde os seus filhos possam fugir em busca de refúgio. Alguns controles são úteis, mas não precisam ser feitos mantendo aquele estilo burocrático e impessoal do colégio.
6. Esteja aberta: observe como as coisas evoluem. Muitas vezes fixamos metas, e é importante tê-las, mas muitas vezes é preciso corrigir a rota. E não há problema algum nisso, afinal, seu objetivo é que os seus filhos cresçam e aprendam, no ritmo que for, pelo tempo que levar, do jeito certo, a coisa certa.

7. Avalie com serenidade: não se afobe, não se assute. Deixe transcorrer algum tempo até que possa avaliar com mais tranquilidade o caminho percorrido. Se você se apressar e ficar mudando tudo a cada passo, pouco avançará. Assim como se você não parar para avaliar o percurso de tempos em tempos, talvez acabe chegando ao lugar errado.

8. Ajuste: é com a prática que percebemos o que funciona e o que não funciona, e não há como praticar sem colocar a mão na massa. Assim, depois de avaliar, não tenha medo de rever alguns pontos, ou mesmo todos eles. Caso haja dúvidas, volte ao ponto 1 ou entre em contato conosco. ;)

sábado, 21 de janeiro de 2017

Filhos pequenos e vida espiritual

Mais uma vez aproveito posts do facebook para dar uma agitada por aqui.

Compartilho aqui algumas sugestões que fiz a uma mãe de dois bebês que me pediu ajuda, pois podem ser úteis a mais alguém. As crianças da mãe em questão têm pouca diferença de idade e o mais velho tem exigido muita atenção.
"1. Em primeiríssimo lugar, priorize as crianças: a casa não é o mais importante no momento, ela poderá ser limpa em outras ocasiões, já as crianças precisam que você agora, neste instante;
2. Quando o mais novo estiver dormindo, dê atenção ao mais velho: dê colo, beije-o, converse, brinque;
3. Quando for oportuno, talvez depois do almoço, durmam os três: você e os bebês. Sem descanso, seu leite pode diminuir e você pode acabar ficando debilitada física e emocionalmente, o que só pioraria tudo.
4. Não se importe com a opinião dos outros. Quem se preocupa de verdade tenta ajudar em lugar de ficar criticando.
5. Às vezes o mais velho precisará ficar chorando um pouquinho. Não se sinta mal. Você é uma única pessoa e simplesmente não tem como fazer tudo ao mesmo tempo com dois bebês no colo. Mas lembre-se de priorizar as crianças.
6. Tente deixar algumas refeições prontas no final de semana para não precisar cozinhar todos os dias. Você precisa se alimentar bem para ter leite e cuidar dos dois.
7. Lembre-se: por mais difícil que seja, esse tempo passa depressa e é muito importante para a sua santificação, por isso tente não se desesperar, não murmurar, nem sentir pena de si mesma. Deus sabe o que você é capaz de suportar e está no controle de tudo."
Abordar a questão de levar as crianças à Igreja é sempre uma tarefa delicada. Há quem se ofenda porque crianças fazem barulho demais. Há quem se ofenda com quem se ofende por causa disso. Mas sobre todas as justificativas, melindres e não-me-toques, uma coisa é certa: Deus não nos dá filhos para que nos afastemos Dele, para acabar com nossa vida espiritual. Pelo contrário! Agora, ainda mais do que antes, somos chamadas a ser exemplo e a viver em atos aquilo que louvamos. Assim, filho pequeno não é nem pode ser um impedimento à comunhão. Filho barulhento e sem respeito também não. Ensine-o a se aquietar, a ser reverente, a observar em silêncio. "Ah, mas é tão fácil falar!" Se a questão é facilidade, a melhor saída para todos os problemas é morrer logo de uma vez, porque a vida é trabalho, é dificuldade, e o Paraíso só conquista quem persevera. Ou seja, a tarefa mais dificil é a que jamais é enfrentada, mas se você se esforçar pelo seu filho, com a graça de Deus, irá conseguir. No início, é normal que na criança faça birra, desobedeça, ou simplesmente não tenha noção de como se comportar, e é exatamente aí que entram os limites e a imitação. Aqui em casa, por exemplo, a coisa funcionou assim: Nathaniel, que é o mais agitado, passou boa parte de sua vidinha no colo do pai durante a Santa Missa; agora, que já é maiorzinho, sabe, por tantas vezes nos ter visto, como proceder, ao ponto de pedir para ir à Igreja. Repito: filhos não são nem podem ser um obstáculo à vivência da fé, nem na esfera pública, nem na esfera privada. Eles são os primeiros prejudicados quando a mãe enfraquece espiritualmente, assim como são os primeiros beneficiados quando ela se fortalece. Deus nos chama a si em todas as situações da nossa vida: na tranquila vida solteira, na insegura vida de recém-casada, na inexperiente vida de mãe de primeira viagem, na atribulada vida de mãe de muitos filhos. Ele nos chama porque nos ama e porque sabe que precisamos, mais do que todas as coisas, Dele mesmo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sugestão de Natal (2)

A Denise Reis me pediu socorro inbox, lá no facebook, (a escola solicitou a compra de 4 livros infantis de diferentes faixas etárias para cada uma de suas 3 crianças) e eu resolvi deixar pública a lista que passei a ela, pois pode ser útil a mais alguém.
Coloquei os links do Amazon porque lá está acontecendo uma "feirinha do livro": a cada 4 livros infantis comprados, o mais barato sai de graça.

Para menina de 9 anos:
- Volume com 3 histórias da Condessa de Ségur (http://amzn.to/2hEiW7O)
- Uma casa na floresta (http://amzn.to/2h6Jmi9)
- Um jovem fazendeiro (http://amzn.to/2h6J9LI)
- Uma casa na campina (http://amzn.to/2ibKTkt)

Para menino de 6 anos:
- A última canção de Bilbo (http://amzn.to/2hR9oqx)
- Peter Rabbit (http://amzn.to/2h6LhmN)
- O mágico de Oz (http://amzn.to/2h6C6Tp)
- Peter Pan (http://amzn.to/2h6I9qT)


Para menina de 3 anos
- Clifford e os sons dos animais (http://amzn.to/2ibGqOK)
- Uma mão lava outra (http://amzn.to/2h6WqUr)
- Uma lagarta muito comilona (http://amzn.to/2hEulEH)
- Da cabeça aos pés (http://amzn.to/2hWjS5j)


Agora, quem quiser não só boas indicações de livros, mas aprender a selecioná-los, faça o meu curso "Ensine seus filhos a gostar de ler", onde explico quais são os critérios para construir uma boa biblioteca para as crianças (www.encontrandoalegria.com - Aba CURSOS), entre muitas outras coisas.